Nota de Solidariedade – Museu Nacional

15 de setembro de 2018

NOTA DE SOLIDARIEDADE

Nós, membros do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará, expressamos profundo pesar e nos declaramos irmanados na dor dos colegas, estudantes e corpo técnico-administrativo do Museu Nacional, diante da tragédia que feriu mortalmente esse nosso precioso patrimônio, com repercussões diretas nos campos da ciência, da educação, e da cultura em nosso País. Trata-se de perda irreparável, que revela a ausência de uma política voltada para instituições que são símbolos de nossa história e identidade. O incêndio do Museu Nacional materializou a destruição que vem se processando, historicamente, na desvalorização da pesquisa e do ensino no País. Incêndio que, de um modo ou de outro, se dissemina pelo Brasil afora, destruindo povos indígenas, quilombolas, trabalhadores do campo e da cidade, gente sem terra e gente sem teto, em constante luta pela vida e que tenta, nos seus limites, se desviar das labaredas. Trata-se de um verdadeiro crime contra a Nação.

Queremos nos dirigir, de modo particular, aos companheiros do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Com este Programa, nossa vinculação institucional se iniciou há quase cinquenta anos, com a inserção de professores nossos no mestrado e, depois, no doutorado. Essa qualificação profissional, bebendo em fonte tão rica, tem gerado saudável troca de saberes, o que se concretiza, por exemplo, na formação de grupos de pesquisa. Assim, hoje, nos sentimos ligados, também afetivamente, ao Museu do Nacional.

Em meio ao seu grandioso acervo, o Museu Nacional abrigava documentos e livros do Núcleo de Antropologia da Política, envolvendo uma rede de pesquisadores de outras universidades, dentre elas a Universidade Federal do Ceará. Relatórios ainda não digitalizados, por falta de verbas, além de uma série de entrevistas com lideranças históricas e outros depoimentos viraram cinza nesse episódio criminoso, sinal da desvalorização da ciência e da cultura pelos poderes no nosso país. Imaginamos o que representa, para todos, a perda de incontáveis “arquivos”, contendo o fazer-se de valiosas pesquisas, que são também parte da história do fazer etnográfico no Brasil.

Assim, nos somamos a todas as vozes de denúncia, indignação e solidariedade que continuam ecoando no Brasil e em outros países. Além da solidariedade, nos dispomos a colaborar no que for possível para recuperação de arquivos e demandas de recursos junto aos poderes públicos.

Nesta caminhada, o luto se concretiza também na luta. Seguimos em frente com o Museu Nacional.

 

Fortaleza, 06 de setembro de 2018.

Colegiado do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará